Ali naquele lugar transbordava ancestralidade, desde as roupas que a maioria das pessoas usavam, até o ambiente decorado com o que foi o nosso passado.
Ali naquele lugar, vendo tanta gente falar com orgulho, vendo tanta gente que se encontrou fugindo de uma alienação epidemiológica que se alastra pelo país, vendo tantas pessoas lindas sorrindo e declamando, cantando, senhoras, jovens, crianças. Meu sorriso era espontâneo e difícil de ser contido, eu fico feliz nesses lugares. Meu cérebro despeja toda serotonina possível, eu fico chapado, brisado de cultura.
Ali naquele lugar, onde a nossa fala é forte, e nos ensina e ensina aqueles que não sabem o que é sermos nós, não sabem como o pente enrosca firme em nosso cabelo sempre que vamos penteá-lo, não sabem como as câmeras de celulares não são criadas para o nosso tom de pele e muito menos os filtros (caso você saiba algum, por favor, me indique), que não sabem como é se preocupar bem menos com as queimaduras do sol, não sabem como é saber que as rugas e as marcas de expressão vão demorar muito mais a aparecer. Mesmo assim, sem saberem o que a melanina na minha epiderme significa. Em um contexto, social, histórico, econômico, psicológico e todas as outras bênçãos e problemáticas, ainda assim, dizem:
Eu sei como é, pois eu tenho a descendência negra!
Confesso que eu ri
Pode ser que estamos em tempos em que precisamos ser mais Malcom X, e menos Reverendo King, mas não faz muito parte de mim, eu gosto de passar o papo, o palestrinha, às vezes me odeio por isso, outras vezes acho que faço o certo. Sendo assim meu caro amigo branco, que estava ali em nosso espaço, na nossa casa, meça as suas palavras. Você nunca vai saber o que é ser preto.
Independente se seu bisavô branco estuprou a sua bisavó preta, independente se o seu avô negro em busca de uma aceitação social casou-se com a sua avó branca, mesmo que você tenha um tio agregado ou adotado negro na sua família ruiva. Mesmo que eu esteja enganado em qualquer dessas relações da qual você descende, e que seja desmentida por haver amor em ambas as partes de seus antecessores. Mesmo assim, meu querido amigo branco, você nunca vai saber o que é ser negro.
Então senta, escute quietinho. Quer ajudar, ótimo! Seja bem-vindo, quer falar (quando deixarmos) fale dentro do seu contexto, empatia (ou a tentativa de ter) não é experiência de vida, quer cantar, quer estar ali com a gente, com a minha gente, ok. Esteja! Mas, que fique certo você nunca será a minha gente. Meu caro amigo branco.
Comentários
Postar um comentário